Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

"Auto-Mobilizados"...

 

SINAIS DO TRÂNSITO
Manuel João Ramos
 
Textos publicados no semanário O Independente, em 1998-99 e coligidos posteriormente no livro Sinais do Trânsito, publicado pela Assírio & Alvim, em 2000.
 
 
(…)
 
POSFÁCIO
 
As páginas que precedem constituem um diagnóstico algo impressionista, e certamente debatível, de um país que se perdeu um dia nas teias do “progresso”.
 
São páginas que dão conta de uma imensa insatisfação pessoal, mas também de uma paradoxal congratulação, perante o retrato de um país automobilizado (mas não auto-mobilizado), e submetido a uma generalizada mentalidade inconscientemente criminal.
 
Eu e o leitor existimos hoje como parte de um colectivo nacional que foi subitamente colonizado por modelos de desenvolvimento importados sem que tivesse criado em devido tempo capacidade crítica para a eles reagir.
 
E tanto eu como o leitor temos um conhecimento mútuo mínimo da existência de elevados ideais, igualmente importados ou importáveis, de equilíbrio social, cultural e tecnológico.
 
 
Constrangidos pelas nefastas consequências de modelos de desenvolvimento que nos subjugam, é inevitável – mais cedo ou mais tarde – vir a recusá-los, ansiando pela realização de ideais que nos redimam das mil asneiras praticadas, e de nos curar da doença do “progresso” tal como ela se manifesta nas mentes, nas estradas e nos passeios portugueses.
 
E no entanto de nada valeria pretender a esses ideais sem sofrer, na carne, os efeitos de um previamente desejado”progresso”. A minha congratulação é de natureza cínica. Prevejo que o remédio colectivo será tomado, e que a situação actual se modificará, indubitavelmente.
 
A incivilidade bárbara que faz do automóvel um instrumento de abuso de poder, de destruição violenta do direito dos cidadãos a uma vida decente, ou simplesmente à vida, tem os dias contados (embora não os saibamos contar, de forma precisa).
 
Será inevitavelmente reconhecido, num futuro mais ou menos próximo, o estado de espírito criminal que se insinuou, se disseminou e se generalizou a uma fatia substancial da população automobilista portuguesa.
 
Sei que o meu diagnóstico, apesar de impressionista, está correcto. Sei que luto por uma terapia assente no reconhecimento colectivo de uma doença. Mas, ainda assim, eu sei que, lutando por um futuro indefinido que vem aí, inexoravelmente, eu o temo tanto como ao instalado presente.
 
E sei também que gostarei tanto ou tão pouco de viver no futuro que ajudo a construir, como no presente que ajudei antes a destruir. Quanto à minha insatisfação, ela advém de uma pergunta que eu reconheço como não tendo resposta.
 
Se a degradação do sistema de relacionamento social no trânsito rodoviário e na organização da vida urbana são evidências para as quais há no entanto remédio eficaz e já testado, porque motivo nos sentimos obrigados a beber o cálice até à última gota?
 
A minha insatisfação advém do facto de não estar certo que o sacrifício de vidas inocentes seja um imperativo para a mudança. Mas, porque estou mal, quero essa mudança. Quero alguma paz.
 
Fonte e textos:
http://iscte.pt/~mjsr/Docs/Manuel%20Ramos%20-%20Sinais%20do%20Transito%202000.pdf
 
 
"A diferença fundamental entre o homem comum e o guerreiro, é que o guerreiro encara tudo como desafio, enquanto o homem comum encara tudo como bênção ou maldição."
 
Carlos Castañeda, antropólogo
 
 
publicado por cambiantevelador às 00:14
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